Zagueiros de "condomínio" e "de segunda" conquistam o Flamengo

GOAL: Paulo de Faria

O Flamengo massacrou o Grêmio na última quarta-feira (23), pela semifinal da Copa Libertadores. Os impiedosos 5 a 0 do time de Jorge Jesus contou com um momento simbólico de afirmação de dois personagens que chegaram com muita desconfiança da torcida, mas que a cada dia que passa são mais importantes para o Rubro-Negro. Trata-se de Rodrigo Caio e Pablo Marí.

A dupla de zagueiros fez os dois últimos gols da partida. Aos 22 minutos, Marí recebeu o cruzamento de Arrascaeta e cabeceou no canto de Paulo Victor, que não conseguiu alcançar. O golpe de misericórdia no time de Renato Gaúcho foi dado por Rodrigo Caio, que, em um lance semelhante, escorou de cabeça para o fundo das redes, consolidando a classificação do Flamengo.

Pablo Marí e Bruno Henrique comemorando gol do Flamengo - Foto: Alexandre Vidal
Para chegar a esse ponto os dois tiveram que encarar a pulga atrás da orelha da nação nos primeiros momentos. E mais que tudo, tiveram de lidar com os estereótipos criados ao redor dos dois. Hoje, o "jogador de condomínio" e o "zagueiro de segunda divisão" são absolutos no miolo de zaga de Jorge Jesus.

Em 2016, quando Rodrigo Caio estava no São Paulo, o Tricolor paulista atravessava - mais um - momento de incerteza. O time tinha acabado de perder a partida para o The Strongest, no Pacaembu, pela fase de grupos da Libertadores e eis que Rodrigo Gaspar, antigo assessor da presidência do São Paulo, postou uma mensagem nas redes sociais criticando diversos jogadores e funcionários do clube. Michel Bastos, Centurión e Milton Cruz foram alvos fáceis. Mas o que mais marcou foi uma frase sobre Rodrigo Caio: "jogador de condomínio".

A frase repercutiu muito e serviu para colocar o zagueiro, que seria campeão Olímpico meses mais tarde, como um bode expiatório da torcida tricolor. O defensor começou a ser perseguido com mais ênfase, embora nunca tenha se escondido das câmeras. O caso do "fair play" no clássico contra o Corinthians, que resultou na anulação do cartão de Jô, rendeu-lhe uma boa imagem perante Tite, que o convocou para a seleção pouco tempo depois, mas enfureceu grande parte da torcida.

Rodrigo Caio é fruto da base do Tricolor e sempre se declarou são-paulino, mas as cobranças fora de proporção pareceram desgastar a relação dele com o clube de infância.

No começo de 2019, o Flamengo anunciou a contratação do ex-São Paulo e deu a ele a chance de provar seu potencial. Hoje ele já é chamado por muitos flamenguista de "Xerife da Nação".

Já Pablo Marí chegou ao Brasil como um desconhecido. Natural de Almussafes, uma pequena cidade na região de Valencia, na Espanha, Marí foi contratado junto ao Manchester City, mas nunca fez uma partida sequer pelo time de Pep Guardiola. Desde que chegou à equipe inglesa, o espanhol foi emprestado diversas vezes e sempre para equipes modestas.

Girona, da Espanha, Breda, da Holanda e por fim o tradicional Deportivo La Coruña. Esses times contaram com os serviços de Marí. O La Coruña, porém, jogava a segunda divisão e isso influenciou no rótulo colocado nele. Muitos questionaram a capacidade do atleta de jogar na elite brasileira por atuar na segundona espanhola. Já havia gente pedindo para o Flamengo contratar mais um zagueiro pois o desconhecido espanhol não daria conta do recado.

Dessa forma, Marí chegou e aos poucos foi ganhando a confiança de Jorge Jesus. O treinador português mudou a vida dele, de acordo com o próprio atleta.

"O Mister mudou a minha vida em três meses. Se ele não treinasse da maneira que treina, não teria tirado o melhor de mim. Temos que agradecer que temos um belíssimo treinador", disse Marí.

Dessa forma, os "renegados" chegaram ao clube de maior torcida - e talvez cobrança - do Brasil. Com questionamentos e muito a provar. Mas isso não se mostrou um problema para eles, que conseguiram se encaixar e hoje fazem uma dupla segura no jogo aéreo e que trabalha bem a saída de bola, aspectos exigidos por Jorge Jesus.

Os dois gols que selaram a primeira final de Libertadores do Flamengo desde 1981 serviram para tirar qualquer dúvida e para afirmar que rótulos não correspondem, necessariamente, à realidade.

Para chegar a esse ponto os dois tiveram que encarar a pulga atrás da orelha da nação nos primeiros momentos.

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