Comentarista português crê que o Flamengo dominará o River

BLOG DA MARIELA MOREIRA: "A gente não falava muito do Campeonato Brasileiro porque não tinha muita organização tática para discorrer. Isso nas minhas perspectivas".

Quem fala é Pedro Bouças, técnico de futebol e comentarista do "Canal 11", de Portugal. Há 12 anos, mantém um blog com análises táticas chamado "Lateral Esquerdo". Suas análises sobre o trabalho de Jorge Jesus extrapolaram o continente europeu depois de discorrer sobre a vitória por 5 a 0 do Flamengo sobre o Grêmio, na Libertadores. O blog entrevistou o comentarista para entender melhor suas ideias e sua avaliação do trabalho do treinador rubro-negro.



Formado em Educação Física, Bouças tem 39 anos e, além de comentarista, também trabalha dando cursos de treinador de futebol. Como técnico da equipe feminina do Benfica foi duas vezes campeão Português e da Taça de Portugal. além de uma Supertaça feminina. Tem dois livros publicados: "Construir uma Equipa Campeã" e "O Efeito Lage", ambos da Editora PrimeBooks.

Gabriela Moreira: Vi que você é licenciado em Educação Física, mas chegou a cursar jornalismo, também? Chama a atenção a sua facilidade em comunicar o que vê...

Pedro Bouças: Sou licenciado em Educação Física, estudei desportivo na Universidade Lusófona. Criei um blog para falar sobre as minha ideias de jogo de futebol, começou como amador, não era muito conhecido, sequer aqui em Portugal, mas esse blog ganhou notoriedade e acabei indo pra televisão. O Lateral Esquerdo começou anônimo. O próprio convite para a televisão surgiu porque me conheceram do blog.

O que mais te chama atenção no time de Jesus?

Aquilo que Jesus está fazendo no Flamengo, ele fez em todos os clubes em que passou. Ele tem uma marca muito pessoal e as equipes jogam da mesma maneira. Há dez anos eu acompanho o Jesus e há dez anos que venho analisando. No Benfica, Sporting e no Braga, antes de chegar a eles. Do ponto de vista tático, os campeonatos europeus estão mais avançados que o Brasileirão. Não foi difícil imaginar que teria sucesso, adivinhar o que iria acontecer.

Porque, efetivamente, do ponto de vista tático, está muito à frente do campeonato brasileiro. Assim como há dez anos, ele estava muito a frente até aqui em Portugal. Hoje, os treinadores portugueses fazem o que ele fazia há dez anos.

Ele é muito estudioso, gosta de ir ao pormenor, gasta muitas horas do seu tempo a pensar como ganhar o jogo. Ele quando era novo estagiou no Barcelona e vem aprimorando os trabalhos. Ele busca a excelência de suas equipes em todos os momentos do jogo: momentos de organização, nas bolas paradas, do ponto de vista defensivo, trabalha muito bem as transições da defesa à zona de ataque. Mas, sobretudo defensivamente, seus jogadores sabem onde têm de estar.

Estas ideias já vêm bem antes de chegar ao Benfica (2009). Mas ele era um típico treinador antes do Benfica, um treinador mais fanfarrão, gostava de se exibir, mas sem resultados. Mas a verdade é que ainda não tinha tido contato com jogadores com a qualidade para mostrar o trabalho. E aí no Benfica, afinal, as pessoas entenderam que ele era bom (no clube Jesus venceu três títulos de campeão Nacional, uma Taça de Portugal e cinco Taças da Liga). O Benfica é como o Flamengo no Brasil, equipe mais popular, com mais títulos, tem o dobro dos campeonatos dos outros todos. Mas quando ele chega em 2009, estavam sem ganhar nos últimos cinco anos. E logo no primeiro ano não só ganhou campeonato, mas dava goleada em todos jogos. Vencendo os seus adversários diretos com goleadas. Levou o Benfica não só aos títulos, mas ás finais europeias, o que não acontecia havia muitos anos.

Ficou famoso um lance: o Benfica só tinha 9 jogadores (2 expulsos), no último lance há um canto para a Juventus. se a Juventus marcasse ia à final da Liga Europa. Quando esse canto é marcado, os oito jogadores sobem, fez uma linha de impedimento. O jogo acabou assim e o Benfica passou à final.

Ele é obcecado por vitórias e não gosta de levar gols. No Benfica, logo no primeiro ano (terceiro jogo, contra o Vitória de Setúbal), venceu por 8 a 1. Chegou a vantagem de 8 a 0. ele começou a xingar os jogadores.

Ele é muito exigente na cobrança.

Ele é um técnico diferente do que era em Portugal? Tem características novas no trabalho dele agora no Flamengo?

Esta a ser o mesmo Jorge Jesus de sempre. Nas equipes de Jorge Jesus há muitas coisas que se repetem. é mais fácil saber o que fazer. O jogo é menos aleatório, os jogadores sabem o que fazer. Conhecem o que se passa. Acho que a grande diferença é efetivamente essa, nas equipes de JJ, tudo é menos aleatório. É menos caótico.

Chama a atenção como ele consegue mudar o jogo muito facilmente, como ele encontra soluções aos problemas que surgem durante as partidas. Como é sua análise deste ponto? Concorda com esta visão?

Quando ele muda um esquema tático é porque, garantidamente, ele já treinou. Nunca acontece nada que ele não nada que ele não tenha treinado. Quando não há tempo para treinar, pelo menos ele passa a informação por vídeo para que os jogadores saibam o que fazer. Um ponto forte dele são as suas conversas individuais com os jogadores. Ele passa horas conversando com cada um, separadamente, sobre como devem agir dentro do esquema tático.

O que te chama atenção no futebol brasileiro como tem sido jogado?

O jogador brasileiro é tecnicamente muito talentoso, muito acima do campeonato português, tem mais recursos individuais, mas as equipes brasileiras nos princípios coletivos estão muito abaixo do que se faz na Europa. Acho que é um jogo ainda muito aleatório, muito caótico, pouco organizadas do ponto de vista tático. Por isso, Jesus tem tido sucesso, ele é muito atento à repetição dos conceitos.

Na análise que você fez do jogo contra o Grêmio, você diz: "O Jorge Jesus usou a forma como o Grêmio se defende para criar perigo no adversário". Você é contra a marcação individual? Pode-se dizer que essa forma é uma forma mais vulnerável, que não se deve usar nunca?

É muito vulnerável por uma razão. Quem defende homem a homem nunca está onde o adversário quer estar. O zagueiro do Grêmio está incumbido de marcar o Gabigol. Se ele sair do sítio, o sítio estará vazio. As equipes que marcam homem a homem nunca controlam o jogo. Na Europa ninguém marca assim. As equipes estão a defender a zona, na Europa. O que eu vejo no Brasil é que se continua defendendo muito em marcações "homem a homem". Não há muito trabalho coletivo nesse sentido, cada um faz as coisas por si. Neste ponto, vejo o Brasil muito distante do que são os principais europeus.

E no setor ofensivo? Nas transições para o ataque? O que identifica como tendência ou o que te chama a atenção?

Vejo as coisas não andam muito juntas. há muita distância entre os jogadores, seja a defender ou atacar. As equipes aqui em 30 metros você consegue apanhar todos os jogadores. No Brasil, os avançados jogam muitos avançados. E defensores, muito atrás. Entre a defesa e o ataque, há cerca de 50, 60 metros. Vejo isso se repetir.

Você não acha que podemos ter momentos em que a marcação individual pode ser a escolha adequada? Não há jogo em que o Jorge Jesus possa preferir esta opção?

Só vi uma única vez o Jorge Jesus comandando marcação individual e foi quando jogou contra o Messi, em Portugal, na Liga dos Campeões (pelo Sporting, em 2017). E geralmente o que acontece é que a forma defende a zona fecha o caminho mesmo aos jogadores

Foi pra você uma surpresa ver estes conceitos que na sua visão são ultrapassados?

Eu já tinha visto vários jogos do Campeonato Brasileiro, mas vou te confessar que no Lateral Esquerdo a gente não falava muito do Campeonato Brasileiro porque não tinham (os times) muita organização tática para discorrer. Isso nas minhas perspectivas.

Além do Flamengo, qual time você avalia como boas equipes taticamente falando?

O Athletico-PR, do Tiago Nunes. E gosto muito do Zé Ricardo, também.

Que jogador do Flamengo te chama mais atenção?

Acho que o Pablo Mari e o William Arão são os jogadores mais competentes da equipe. Com maior capacidade para chegar a um clube europeu e ter sucesso.

O Gerson também tem muita qualidade, mas o Mari eu prefiro pela qualidade de passe, pela impressionante capacidade física. O Arão é um médio com muito andamento, ocupa muito rápido os espaços, recupera muito as bolas e tem muito boa saída de bola. O Arrascaeta é um belo jogador, se destaca, mas joga a uma velocidade abaixo do que se faz na Europa.

Você foi treinador de futebol feminino durante três anos. Tem acompanhado o futebol brasileiro neste aspecto? O que achou da contratação da Pia Sundhage para técnica da seleção?

Vou falar mais no geral. Vejo que as jogadoras brasileiras são muito talentosas, faltava dar um clique tático para potencializar este talento. A contratação de uma técnica sueca vai contribuir para isso. Acho que deve ter uma preocupação com um desenvolvimento mais tático. Se fizer isso, vão ser imbatíveis.

O que você projeta para o Flamengo na final contra o River, pela Libertadores?

Uma final é sempre um jogo muito equilibrado, acredito que JJ vá com uma dose de favoritismo, precisamente porque vai com uma equipe brasileira com ideias do que se faz no melhor da Europa. Se as coisas ocorrerem dentro do normal, o Flamengo sai campeão. Acho que o Flamengo vai tomar conta do jogo. Jesus nesses jogos prepara muito bem a forma como pressiona o adversário, vai tirar a bola do River e vai assumir o jogo, vai ser protagonista. Com a bola e quando não a tem, pressionar muito forte e rápido para que assim que possa ter de volta.

Mas os perigos que o River traz são jogadores de nível importante, como o Enzo Pérez que jogou com Jesus e é um dos melhores do River. É uma equipe que pode fugir e explorar as costas da defesa do Flamengo, mas acredito que a equipe do Flamengo possa estar preparada.

Formado em Educação Física, Bouças tem 39 anos e, além de comentarista, também trabalha dando cursos de treinador de futebol.

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