Futebol medieval

BOLA DE CRISTAL: Por Gustavo Poli

Nada justifica violência em jogo de futebol. Nada. As agressões dentro e fora do Estádio Nilton Santos sublinham a mentalidade medieval que ainda cerca o futebol e impera em quase todas as torcidas. No fundo, o torcedor muitas vezes ecoa nosso neanderthal íntimo - aquele que escondemos diante de camadas de razão. Estão errados todos os atores desse drama - alguns mais do que outros. Nada justifica as imagens que vimos - e que foram repetições de tantas outras em estádios pelo Brasil ao longo dos últimos anos.

Em campo vimos um jogo duro e viril - em que o Flamengo suou muito para vencer. O Botafogo chegou junto, catimbou, levou amarelos justos. Mas não houve agressões nem violência. O time de Alberto Valentim incomodou a máquina de Jorge Jesus - reduzindo espaços e usando bolas longas contra a marcação alta. Ao menor sinal de pressão, os zagueiros alvinegros buscavam o lançamento ou chutão - usando a altura de Cícero e Alex Santana como referências. Sem a bola, marcação duríssima - reduzindo espaços e dividindo todas as bolas.



Com essa fórmula, o Botafogo foi ligeiramente melhor no primeiro tempo e poderia até ter aberto vantagem. No segundo tempo, a expulsão tola de Luiz Fernando transformou o equilíbrio no jogo de um time só - mas mesmo assim o Flamengo criou pouco para seu padrão. Gatito Fernandéz não fez nenhuma defesa (a bola bateu nele numa cabeçada de Pablo Marí). O gol no fim premiou a persistência rubro-negra e foi um castigo cruel diante do esforço do Botafogo.

A reclamação de Jesus ao fim do jogo dizendo que Valentim estimulou a violência soou algo exótica. Afinal, no primeiro turno, ele não se indignou quando Cuéllar deu uma entrada desclassificante em Marcinho nem quando Rafinha com amarelo derrubou um adversário em progressão. Ambos deveriam ter sido expulsos. Rafinha ficou em campo, fez a jogada do gol da vitória rubro-negra por 3 a 2 e Jesus não falou nada.

O sarrafo de Cuéllar, em especial, deveria merecer reprimenda de quem diz abominar violência. Valentim, por outro lado, derrapou ao dizer que "ele não pode vir ao Brasil falar isso". Pode. É um país livre, uma democracia. Jesus pode e deve dar suas opiniões.

Desgastado ou não, o Flamengo arrumou uma solução e venceu. E agora começa a enfrentar sua semana mais decisiva - com três jogos difíceis que poderão confirmar seu algo antecipado título. O Palmeiras, que enfrenta o Corinthians descarillado em casa, ainda mantém esperança - mas os oito pontos soam cada vez mais intransponíveis.

Do outro lado da tabela, o Botafogo encomendou seu ingresso para o Z-4 ao encontrar a décima derrota em 12 jogos. O clube briga com Fluminense, Cruzeiro, Ceará e Fortaleza para fugir da derradeira guilhotina. O CSA, no CTI, ainda respira... e se vencer o Vasco pode convidar o cruz-maltino para voltar à dança da confusão.

As cenas do Engenhão deveriam nos servir como pausa. Num país conflagrado e dividido, a violência torcedora é apenas mais um sintoma da intolerância que progride. Mas não servirão porque o diálogo de surdos tupiniquim se aprofunda. Vivemos entre torcidas que querem remover adversários de suas arquibancadas (e não se culpe uma torcida de futebol ou outra por isso - todas as torcidas têm elementos com comportamento semelhante diante da camisa adversária).

Todas querem gritar mais alto, enxergar apenas o defeito alheio e banir o diálogo. Mas - cumpre lembrar - o país é estádio de todas as torcidas. Um dia, especula esta bola de cristal, sairemos dessa triste armadilha.

Em campo vimos um jogo duro e viril - em que o Flamengo suou muito para vencer. O Botafogo chegou junto, catimbou, levou amarelos justos.

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