Para flamenguistas, nunca mais haverá Quarta-feira de Cinzas

MEIA ENCARNADA: Por Douglas Ceconello

Tanto os rubro-negros se guardaram para quando seu Carnaval chegasse que nunca mais será Quarta-feira de Cinzas. Nesse enorme hiato, se guardaram, é claro, seguindo preceitos peculiares, sempre crentes ao seu indissociável hedonismo, que transforma aeroportos na Geral do Maracanã. Que permite redimir quatro décadas em três minutos, pois sempre é momento de pedir a última saideira.

A redenção foi escrita considerando todos os requintes da expectativa: a virada agonizante e libertadora é mais honesta e fiel ao flamenguista do que seria um baile indiscutível sobre o River Plate, desfecho também possível pelo recente retrospecto avassalador da esquadra de Jorge Jesus, o português sabático. O Flamengo das exibições de gala no Brasileiro, guardado no bolso de forma quase incidental durante a catarse no Centro do Rio de Janeiro, transmutou-se naquilo que o cenário exigia: assim como ao cruzar a ponte em Apocalipse Now, também em uma final de Libertadores não há mais retorno possível.

Foto: André Durão
A maneira como o Flamengo venceu a decisão, ameaçando inaugurar um império rubro-negro nos subúrbios incas, é mais impressionante do que outras admiráveis passagens sob o comando de Jesus. Porque suportou o céu que prometia desabar em uma jornada que durante grande parte da tarde se anunciou maldita, onde tudo malograva — justamente a jornada em que nada podia ser adiado, que não permitia revanche.

De repente, não mais que de repente, Filipe Luís errava passes protocolares, a usina chamada Éverton Ribeiro se desdobrava para acender um pisca-pisca e o jogo, normalmente tão vistoso, insistia em não fluir. Se tecnicamente o cabo da embreagem estava arrebentado, a equipe de Jorge Jesus soube aguentar no tranco e sobreviver ao gelo e ao veneno do River Plate com tamanho domínio PSÍQUICO que ao fim do jogo, quando fígado e cérebro se fundem, estava ainda vivo e esperneando — e este Flamengo vivo é uma coisa muito séria. Letal como poucos, impetuoso como quem já reivindica a história.

Se os sacrifícios operam como intermediários entre as pessoas e os deuses, coube ao zagueiro Pinola, de atuação exuberante durante cem minutos, ser carregado em procissão rumo ao ponto mais alto da Cordilheira, e então por duas vezes perceber de Gabriel apenas o vulto. Alguém precisaria arcar com a urgência histórica: o deus a ser saciado, no caso do futebol, no caso do Flamengo, é o corpo da multidão, ele próprio santo e ancestral — em Lima ou na Candelária, tecido impermeável e resistente às intempéries, imune a Emelecs, Cabañas e outras novenas.

A torcida que ao longo dos tempos escolheu comemorar a si mesma, para que a alegria não precisasse ser necessariamente consequência da realidade, que é sempre traiçoeira, anti-carnavalesca e contrária às libertações, talvez ainda precise de tempo para digerir, para juntar os fragmentos pós-ressaca etílica e existencial: no jogo da vida, três minutos foram necessários para inaugurar a posteridade.

E este Flamengo vivo é uma coisa muito séria. Letal como poucos, impetuoso como quem já reivindica a história.

Postar um comentário

[facebook]

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Tecnologia do Blogger.
Javascript DisablePlease Enable Javascript To See All Widget