Por que Bruno Henrique está em outro patamar?

PAINEL TÁTICO: Por Leonardo Miranda

Um mês, dois títulos e a artilharia do Campeonato Brasileiro já virou realidade para Bruno Henrique. Depois de marcar mais um hat-trick pelo Flamengo, na vitória de 4 a 1 no Ceará que coroou a entrega do título do Brasileirão, o atacante chega a 21 gols, apenas um a menos que seu companheiro Gabigol.

É um outro patamar entre os atacantes brasileiros em 2019.

Já sabemos o fato - que Bruno Henrique está acima da média. Agora vamos para a explicação. Quais são os motivos desse crescimento? As respostas começam no coletivo. Na forma de jogar, que potencializa as características do jogador, como imposição física, velocidade e capacidade de antecipação de zagueiros. Isso fica claro porque todos os gols parecem ser iguais: circulação de bola e cruzamento. Dos 21 gols que Bruno Henrique fez com Jorge Jesus, 8 vieram de cruzamentos.

Foto: Alexandre Vidal
Cruzamento de bola na área é normal. Por que o do Flamengo é tão mortal?
Um dos fatores é o posicionamento dos atacantes antes do cruzamento ser feito. O ataque oferece opções de cruzamento porque busca o confronto com a linha de defesa adversária. A referência passa a ser individual. O jogador tem que virar a cabeça para o lado onde está a bola e virar o corpo de frente para o gol. Não importa a posição do jogador em campo, importa apenas a localização. Se está próximo da área, então deve realizar esse movimento que Bruno Henrique faz aqui.

Cruzamento do Flamengo: atacantes buscam ocupar a área — Foto: Leonardo Miranda

A partir do momento que o cruzamento é feito, quem está na área precisa se mexer. O movimento se chama "atacar o espaço". Correr para a frente e tentar se antecipar ao zagueiro para ir de encontro com a bola. Seja ela pelo chão, num cruzamento rasteiro, seja pelo alto. O que garante essa eficiência é a velocidade de raciocínio. Os jogadores entendem que precisam "atacar a área" até mesmo antes da bola circular até o lateral ou meia aberto, porque assim eles terão mais chances de chegar na frente do zagueiro e finalizar.



Isso acontece a todo momento. Em todo jogo. Nos gols, em defesas dos goleiros e em jogadas que não dão em nada (que normalmente são esquecidas). Isso é padrão de jogo. O padrão de jogo não está nos gols, porque o gol é fenômeno mais raro e difícil de acontecer no jogo. O padrão acontece quando a jogada não dá em nada, quando o jogador erra a finalização, quando o adversário consegue roubar a bola...quer um exemplo? Essa jogada no empate do Flamengo contra o Vasco não deu em nada, mas ela tem o mesmo padrão de dois dos três gols feitos por Bruno Henrique no jogo contra o Ceará.



Padrão de jogo serve para que o time produza as condições para que o jogador mostre seu talento. Todo mundo tem talento. A questão é se esse talento está conectado ao time. Bruno Henrique, por exemplo, fazia boas jogadas no Santos, onde atuava aberto pela esquerda no 4-3-3 do time. Afinal, ele é veloz e consegue conduzir bem a bola (o gol na final da Libertadores que o diga). Mas ele estourou quando passou a jogar centralizado porque aí pode mostrar mais características, como a capacidade de antecipação no adversário.

Outro exemplo? A mesma jogada, com o mesmo padrão, acontece contra o Inter.

Gol do Flamengo contra o Internacional — Foto: Leonardo Miranda

Padrão de jogo serve para que equipes possam jogar bem. Já percebeu que quando um time não vai bem normalmente se fala que "falta padrão de jogo"? É mentira. Ele está ali, o que acontece é que ainda não está perceptível aos olhos do torcedor e não produz o resultado final, que é o gol. Uma ideia só vai se manifestar em campo quando ela for automática.

Quando os jogadores sabem tão de cor os movimentos que eles fazem de cabeça, sem nem pensar. Isso faz com que os movimentos sejam mais rápidos. A escola espanhola de futebol tem um nome para esse estágio de maturidade: automatismo. O Flamengo é um time no auge de seus "automatismos".



Temos que olhar mais para como as coisas se interligam. Não para elas sozinhas.
Então sabemos que o segredo do Bruno Henrique ser tão goleador é uma conjunção de coisas: o Flamengo tem um padrão de jogo que permite que ele mostre seu talento natural, sua capacidade nata, que é antecipação e velocidade. Quem monta o padrão de jogo é o Jorge Jesus. Quem joga é o Bruno Henrique. E aí, o que é mais importante: o técnico ou o jogador?

A resposta: os dois!

Nunca é "só" um ou "só" outro. O futebol é um esporte coletivo no qual a interligação entre as coisas que faz a diferença. É impossível avaliar individualmente ou dividir em proporção. E todo dia, é o que mais fazemos: fulano é x, fulano é y, tal jogador não presta. Isso é uma análise individual que não pega a interligação das coisas.

Mas no futebol tudo está tão interligado que um time é um processo de retroalimentação. Um exemplo é o próprio Flamengo. Para o cruzamento ser feito, a bola precisa chegar aos caras abertos. Ela precisa ser circulada, tocada de um lado para o outro. Por que o Gérson fez tanto a diferença? Porque ele é o cara que circula e leva a bola aos lados com qualidade. Veja o mapa de passes dele: de um lado pro outro, do centro para fora até o cruzamento ser feito.

O time do Abel Braga tentou fazer esse tipo de cruzamento durante meses e não conseguiu. Aí o Jesus trouxe a metodologia de treinamento e sua personalidade de cobrança, sua leitura de jogo, e os movimentos passaram a ficar automáticos. O time mudou demais. Mas ainda não conseguia tornar essa jogada tão efetiva com Diego e depois Arão nessa função. Eles possuem outras características, e tá tudo bem. O clube tem dinheiro, foi buscar Gérson e Bruno Henrique desandou a fazer gols e o Flamengo fez um segundo semestre simplesmente perfeito.

Todos têm sua importância. Porque todo mundo tem talento. Todo mundo pode ser bom um dia. Todo treinador pode ser campeã. O jogador não deixa de ser craque de um ano para outro, o técnico não desaprende de um mês pro outro. Quando isso acontece é porque a relação dos jogadores com o jogo muda, não porque o indivíduo muda.

É por isso que temos que olhar mais para como as coisas se interligam. A relação entre jogador, treinador e o jogo. É um outro patamar de visão. Assim como Bruno Henrique e o Flamengo estão em outro patamar de futebol há meses no Brasil.

O Flamengo é um time no auge de seus "automatismos".

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