Clubes ainda ignoram a aula dada pelo Flamengo de Jorge Jesus

O GLOBO: A semifinal brasileira da Copa Libertadores de 2019 fez muito mais do que expor a distância técnica entre os dois melhores times do país. Imaginava-se que seria um festival de qualidade, um choque entre equipes de ideias semelhantes decidido pelo “fator Highlander”: só pode haver um.

Ao final de dois jogos, especialmente após a destruição que marcou o encontro no Maracanã, pôde-se perceber que Flamengo e Grêmio estavam separados por pelo menos dois andares. E o que se passou desde então estabeleceu uma diferença ainda maior, por causa da forma como cada um olhou para 2020 e das rotas escolhidas para atravessar a temporada. O Flamengo se dedica ao que tem valor; o Grêmio está preso a uma rotina que clubes desse tamanho já deveriam ter abandonado.

Time reserva do Flamengo 2020 - Foto: Alexandre Vidal
O Mundial de Clubes da Fifa manteve o campeão sul-americano em competição até tarde em dezembro passado. Considerando as obrigatórias férias de 30 dias, havia uma decisão a tomar quanto à duração do período de preparação para o ano futebolístico. No que provavelmente é o principal impacto de sua passagem pelo futebol brasileiro, Jorge Jesus exigiu um mês de pré-temporada, gerando um conflito de datas com o torneio estadual. O que teria feito Renato Portaluppi na mesma posição? Mais: mesmo que a postura do treinador do Grêmio – um híbrido entre o ídolo imortalizado e o técnico de futebol – fosse a mesma, o clube seria corajoso a ponto de converter o comovente Campeonato Gaúcho de 2020 em treinamentos com uniforme? É um movimento mais profundo do que apenas uma escolha estratégica.

Enquanto o Flamengo conquistou a Taça Guanabara representado por jogadores de base, duas ou três aparições do time mais poderoso e uma equipe formada por suplentes – titulares em qualquer outra parte do país, frise-se – no jogo decisivo, o Grêmio tropeçou no Caxias e ofereceu as cabeças de Diego Souza e Thiago Neves à histeria do torcedor on-line. Como se algum jogador fosse contratado para ser campeão de torneio de verão. Nem a vitória no Gre-Nal, o único suspiro de relevância do campeonato, teve força para sustentar as escolhas de Renato, pressionado pelo gremista de Twitter com variações do “por amor ou por terror” antes do final de fevereiro. É o preço da opção por viver num tempo que já passou, desperdiçando energias e recursos com o enfoque equivocado a um trecho do calendário que deveria possibilitar, e não prejudicar, objetivos de verdade.

Alguém poderá argumentar que a diferença está no resultado, o que seria uma leitura rasa. A questão não é ganhar ou perder no estadual, mas como tratá-lo. Ao comunicar corretamente – um acerto num clube cuja comunicação mais se parece com sabotagem interna – de que maneira o torneio da Federação de Futebol do Estado do Rio seria utilizado na programação do ano, o Flamengo se colocou na melhor situação possível para, eventualmente, não ganhar o título e se concentrar no que Jesus descreve como “outro patamar”. E se ganhar, o que parece o desfecho natural, terá sido sem prejuízo do aquecimento planejado conforme o tamanho do clube. Aqueles que não compreenderem essa incompatibilidade terão mais patamares a subir.

Enquanto o Flamengo conquistou a Taça Guanabara representado por jogadores de base, o Grêmio tropeçou no Caxias.

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