Flamengo vence, mas sente as pernas

O GLOBO: Por Carlos Eduardo Mansur

Jogos espetaculares como o Fla-Flu desta quarta-feira celebram o futebol e sua complexidade. Porque é impossível encontrar um só fator que explique como uma partida que, por quase 60 minutos, parecia se encaminhar para um massacre, de repente se converte em drama.

O jogo nem se assentara e o Flamengo já fizera 2 a 0. Daí em diante, é possível falar em ajuste tático tricolor, em cansaço rubro-negro, em retomada de confiança de um lado e perda dela pelo outro. Entre o estratégico e o anímico, nenhum fator sozinho explica a quase reviravolta. Talvez, juntos, todos eles contem melhor o clássico. Com justiça, um Flamengo superior por mais tempo ganhou por 3 a 2 e vai à final da Taça Guanabara, no dia 22, quando vai enfrentar o vencedor de Boavista e Volta Redonda, que jogam domingo, às 16h. Mas o tricolor, num jogo que parecia refletir um abismo, sai de campo com a sensação de que há margem de evolução.

Arrascaeta em Flamengo x Fluminense - Foto: Alexandre Vidal
Desde o ano passado, fala-se em explorar as jogadas em velocidade pelos lados contra a linha defensiva adiantada do Flamengo. Em tese, o Fluminense poderia fazê-lo com Wellington Silva, Marcos Paulo e a vantagem do empate. Mas tudo ruiu quando Filipe Luís ganhou uma bola na esquerda e surgiu o córner do gol de Bruno Henrique, antes dos dois minutos. O contexto ficou hostil demais ao tricolor.

A começar pela diferença econômica e, por consequência, de qualidade dos elencos. A isso se soma um trabalho magistral de Jorge Jesus iniciado em julho, que faz o Flamengo funcionar como um relógio ao executar fundamentos do jogo pedido pelo português. Um deles, a pressão no campo contrário, encaminhou a vitória no Fla-Flu antes dos dez minutos.

Para completar o contraste, o Fluminense trocou oito titulares do ano passado, refez seu ataque com dois jovens e tem seu treinador no cargo há um mês. E sofreu um gol após outro no início, duros golpes no emocional.

Num duelo de dois times que apostavam em pressão intensa, parecia que o Flamengo a executava com mais vontade. Na verdade, o fazia com mais organização por ser um time mais formado.

Em vantagem, deu uma aula de pressão, retomadas de bola e criação de chances em velocidade. Os volantes Yuri e Henrique não jogavam e, com os defensores pressionados, o Fluminense não respirava. Tentava saltar a pressão com passes mais longos, mas a bola era sempre rubro-negra.

Era o que de pior poderia acontecer ao tricolor. Recuperando bolas contra um rival desordenado após a perda da posse, o Flamengo tinha o espaço para acelerar. Cercado por Filipe Luís e Arão, Wellington Silva errou passe, Henrique não alcançou a bola e muito menos pegou Gabigol na corrida: 2 a 0 e um efeito dominó. Um Fluminense tenso, com Muriel inseguro após erros iniciais ao sair jogando e sempre pressionado. Antes do intervalo, Arrascaeta, ontem jogando pelo centro junto a Gabigol, teve duas ótimas chances.

O segundo tempo parecia trazer outro ingrediente favorável ao banho que o rubro-negro aplicava: espaço. Nunca faltou coragem ao Fluminense que, mais adiantado, deu campo e viu uma linda triangulação de Gabigol, Bruno Henrique e Filipe Luís acabar no gol do lateral. Tinha cara de goleada.

Mas aí terminava um jogo e começava outro. Pode-se dizer que ele começa num erro terrível do Flamengo na bola parada do gol de Luccas Claro. Mas a jogada já sai com Marcos Paulo pela direita, uma primeira mexida de Odair Hellmann. Viria outra, a entrada de Pacheco e, depois, de Caio Paulista. Além da insistência em bolas profundas pelos lados.

Mas o jogo não se explica só por aí. O Flamengo não abria mão na iniciativa, só que não tinha mais tantas pernas para pressionar e recompor a defesa — um alerta para o restante do ano após uma pré-temporada muito curta e time titular repetido quase totalmente nos últimos três jogos.

Além disso, sua linha defensiva, com uma dupla de zaga nova que não atuou bem, se descoordenava. Pacheco foi pego várias vezes em impedimento, mas o risco era real. Até que Gilberto foi à lateral da área — num lance em que Pacheco, impedido, pareceu interferir— e cruzou a bola que terminou no gol de Evanílson. O Fla-Flu enlouquecera.

Pacheco sofreu um pênalti, mas estava impedido. Caio Paulista fez o gol, mas também estava impedido. O Fluminense passou a centímetros da reviravolta.

Num grande Fla-Flu, vai à final o melhor time, em qualidade técnica, tática e estágio de formação. Mas a noite premiou os quase 60 mil presentes, exemplares em boa parte do tempo. Os tricolores substituíram o repugnante “time assassino” por “paguem as famílias”, mais palatável. Os rubro-negros tropeçaram no fim, ao reeditarem um coro homofóbico que parecia adormecido. Foi quase perfeita a noite do Maracanã.

O tricolor, num jogo que parecia refletir um abismo, sai de campo com a sensação de que há margem de evolução.

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