Insensibilidade, mesquinharia e desumanidade do Flamengo

RENATO MAURÍCIO PRADO: No dia em que se completou um ano da maior tragédia da história do Flamengo - a morte de dez jovens da base, carbonizados, num alojamento inapropriado no Ninho do Urubu - os dirigentes rubro-negros voltaram a dar um triste show de insensibilidade, mesquinharia e desumanidade, envergonhando até boa parte de sua torcida.


Se o presidente Rodolfo Landim, seu alter ego, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, o CEO Reinaldo Belotti e outros entendessem a grandeza e a importância social do clube, não somente já teriam resolvido a questão das indenizações das famílias dos garotos mortos, como fariam dessa data um marco, um tributo, uma celebração à memória deles e à promessa de jamais repetir os erros que possibilitaram o desastre.


Mas, ao invés de realizar, por exemplo, uma missa campal no Ninho do Urubu, com a presença dos familiares dos que se foram e dos sobreviventes, e aproveitar a ocasião para inaugurar um memorial à altura da desgraça que causou (após mais de 30 autuações de irregularidades, emitidas pelos mais variados órgãos do Estado, do Município e do Corpo de Bombeiros), o que fez a cartolagem?

Foto: Divulgação
Barrou a entrada de parentes de Christian Esmério e Jorge Eduardo, que só queriam acender uma vela para seus meninos, enquanto os dirigentes, sozinhos, compareciam a uma missa, na Igreja de São Judas Tadeu, a dezenas de quilômetros dali. Cerimônia para a qual nenhuma família das vítimas foi convidada.

No mesmo horário, no local da tragédia não havia nem sequer um representante da diretoria capaz de receber e acarinhar os parentes que lá estavam para curtir sua dor. Pior: as declarações de Rodolfo Landim sobre o desencontro foram catastróficas. Nem sabia direito o que acontecera e atribuiu "certa confusão" à vontade dos parentes de aparecer na TV. Uma vergonha! Mais uma...

Não fosse o espetacular sucesso do futebol rubro-negro (obtido muito mais pelo conhecimento do mundo da bola de Marcos Braz e de sua bem-sucedida pareceria com Bruno Spindel do que pelas ações de Landim, Bap, Belotti e que tais), essa diretoria já estaria crucificada não somente pela opinião pública, mas até por seus torcedores. Que, aliás, entre várias faixas alusivas aos "Meninos do Ninho" já estenderam no Maracanã, antes do jogo contra o Madureira, aquela que simboliza o grito da sociedade: "Paguem as famílias"!

Não custa lembrar, quando da primeira audiência com o Ministério Público, a Defensoria Pública sugeriu o pagamento de R$ 5 milhões por família (o que totalizaria R$ 50 milhões). O Flamengo não aceitou e contrapropôs R$ 20 milhões. Uma diferença, portanto, de R$ 30 milhões.

É muito dinheiro? É. Mas não para um clube que faturou quase um bilhão em 2019 e prevê R$ 900 milhões este ano. Não para um clube que colocou em seu orçamento a previsão de ganhar R$ 80 milhões com a venda de atletas, em 2020, e nos primeiros meses já abiscoitou CR$ 136 milhões, só com a negociação de uma prata da casa (Reinier).

Tenho conversado com muitos rubro-negros, quase todos inconformados com a postura da atual diretoria. Alguns foram componentes da chapa azul original e ex-dirigentes do clube. Um deles, sagaz e irreverente, me disse algo assustador, mas verdadeiro:

"O Flamengo está deixando de ser o clube do povo, criativo, alegre e emocional e se tornando uma instituição fria, arrogante e insensível. Sua imagem está deixando de ser uma mistura de Jorge Benjor com Zico para assumir a cara do Bap..."

Outro disse acreditar que o rubro-negro está sendo dirigido por ETs:

"Nunca vi tanta insensibilidade e desumanidade. Não sei o que esses caras pensam. Tratam o clube como se fosse uma empresa e os meninos que morreram, funcionários que nunca tivessem visto na vida. Entregaram o caso a dois escritórios de advocacia e agora se omitem. Não conseguem ver que isso é uma ferida aberta. Que macula a saúde do clube. Que ferra o Flamengo. Abriram mão da cota da TV Globo (R$ 18 milhões) no Estadual, que poderia ter sido usada para ajudar nas indenizações às famílias. Pagaram R$ 61 milhões de prêmios aos jogadores, dos quais trinta por cento deveriam ter sido destinados aos funcionários mais humildes, mas pagaram somente 10% e ficaram com o restante do dinheiro. Um negócio de maluco. Esse caso dos meninos é o único calcanhar de Aquiles que o Flamengo tem. E em vez de sanar isso, ajudam a que se propague. Melancólico. Infelizmente, estamos num clube que existe um presidente (Landim) que é de direito, mas não é de fato. E um vice de relações externas (Bap) que é de fato o presidente. Que momento triste estamos vivendo. Tenho vergonha."

Por mais que tenha sucesso no futebol, a grande questão é que um clube conhecido como o Mais Querido não pode se tornar mesquinho, calculista e desumano - e como tal tem agido no trato com as famílias dos meninos. Assim agiu também na inacreditável dispensa de cinco dos sobreviventes do incêndio (um deles mandado embora no dia de seu aniversário!). E no polêmico caso do veto à premiação dos funcionários mais humildes do futebol (considerada alta demais, embora o dinheiro viesse da gratificação dos jogadores) e na caça às bruxas, por causa desse episódio, iniciada com a demissão de Pelaipe e do nutricionista do Ninho do Urubu.

Graças ao saneamento de suas finanças, iniciado na gestão de Bandeira de Mello e mantido agora, o Flamengo tem condições de pagar muito mais do que está oferecendo aos parentes dos dez jovens que morreram enquanto se preparavam, nas precárias instalações do Ninho, para dar glórias e lucros ao rubro-negro, como recentemente fizeram Vinícius Jr, Lucas Paquetá e Reinier, para ficar apenas nos mais famosos.

Estabelecer um teto (de R$ 2 milhões), como foi feito para as indenizações, não é negociar. E a alegada questão de princípios (quais?) não justifica frieza. Não é hora de gelo no sangue, mas de calor no coração, como escrevi aqui, há uma semana.

Aumentem o teto, dobrem-no, tripliquem-no, se necessário for (compensando também os acertos já feitos) e paguem as famílias, encerrando de vez esse show de horrores, que está destroçando a imagem do rubro-negro. Sordidez nunca combinou com o Flamengo e, por mais que o futebol brilhe, não pode de forma alguma ser admitida no clube. Paguem as famílias e deixem a alma desses pobres meninos descansar em paz!

Ah, ia me esquecendo: o time de Jorge Jesus venceu o Madureira e está classificado para as semifinais da Taça Guanabara, na próxima quarta-feira. Tal vitória, porém, acabou eclipsada por tudo o que aconteceu nesse triste primeiro aniversário da tragédia no Ninho.

É muito dinheiro? É. Mas não para um clube que faturou quase um bilhão em 2019 e prevê R$ 900 milhões este ano.

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