Isso não é Flamengo

GLOBO ESPORTE: Por Lédio Carmona

Um ano após a Tragédia do Ninho do Urubu o torcedor rubro-negro fez sua parte. Na porta do centro de treinamento ergueu um varal de dez camisas 10 em homenagem às vítimas. Um artista pintou o rosto dos meninos mortos num muro que virou símbolo de celebrações, orações e homenagens. O minuto de silêncio, prorrogado com mais dez minutos de bola rolando, foi um dos mais arrebatadores da história. Sentido e triste, o torcedor cobrou, protestou e chorou pelos garotos. Aquilo ali foi Flamengo. Muito Flamengo. O povo fez sua parte. Com amor e sensibilidade, expressou seu respeito pelos que se foram e a paixão pelas cores do clube.

Nos gabinetes, no entanto, a frase que tanto orgulha os torcedores merece uma alteracão. “Aquilo ali não é Flamengo”. Os dirigentes do Flamengo já deveriam ter chegado a um acordo com todas as famílias. Ninguém sabe calcular o preço de uma vida, a perda de um filho, o vazio da existência, a saudade de quem se foi ou as noites de insônia na busca de uma resposta ou de um aconchego espiritual.

Foto: Divulgação
Quanto mais o Flamengo prolonga essa situação, menos chance essas famílias tem de se reconstruir, tanto na parte financeira quanto na psicológica, mesmo que seja oferecido suporte nas duas frentes. E enquanto o processo se arrasta mais o clube enxerga sua marca na berlinda.

Resolvam a questão. Concluam o acordo. Não façam tantas contas. Não é hora de gelo no sangue. O momento é de carinho. Essas famílias precisam virar essa página e buscar a redenção. O Flamengo, também. Os dirigentes, que souberam reorganizar e revolucionar as finanças do clube, precisam entender que dor não se cura com planilhas. Os últimos dias deixaram claro que o reforço da empatia precisa chegar rápido à Gávea. Não custa caro. Basta querer. Basta não se achar acima do mal ou infalível ou mais do que perfeito. Em-pa-tia.

Fora de campo, o Fla é um sucesso na administração e multiplicacão de verbas. É o maior clube/marca da América do Sul e está léguas à frente de qualquer outro brasileiro. Dentro de campo, montou um timaço, vencedor e histórico. Nas arquibancadas, o torcedor dá seu show a cada partida. 64 mil pessoas contra o Madureira. De novo: 64 mil contra o Madureira.

Se tudo é tão bem-feito porque não estender o processo para a questão do Ninho?
Como até hoje uma diretoria competente como a do Fla não chegou ao acordo com as famílias?
Como até agora não fez um único amistoso com renda revertida para as vítimas (deveria fazer 10, um a cada ano)?
Como ainda não construíram um memorial em homenagem às vítimas?
Como ainda não deram uma, duas, três, inúmeras coletivas para tratar do caso e preferiram um pronunciamento teatral na semana passada?
Como criar barreiras e causar constrangimento às famílias que quiseram entrar no Ninho para rezar pelos filhos?
Como relativizar uma CPI sobre a Tragédia no Ninho?
O momento exuberante do Flamengo no futebol não merecia tantos questionamentos. Alguém precisa dar um basta, bradar o “Isso aqui é Flamengo”, buscar a empatia perdida e dar paz e sossego a todas as famílias das vítimas. Não dever ser tão difícil. Muito menos caro.

Como até hoje uma diretoria competente como a do Fla não chegou ao acordo com as famílias?

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