O Flamengo não compreende o seu papel

O GLOBO: Por Carlos Eduardo Mansur
No final dos anos 1990, um executivo do Manchester United explicava como o clube entendeu seu papel na indústria do entretenimento e sua relação com a sociedade. A discussão na cúpula do United partiu de uma pergunta: “O que vendemos? Futebol? Jogadores?”. Não demorou muito para que o debate se encerrasse diante da conclusão definitiva: “Vendemos sonhos”.

É algo de uma profundidade acima da que se imagina. Aqui, vender sonhos tem um sentido amplo e poderosíssimo. Engloba toda a gama de emoções que um clube desperta: do menino que sonha em jogar bola ao que fantasia viver uma tarde num estádio lotado; é a vitória que gera uma sensação de realização que, por vezes, a vida nega; são os valores que se percebem acoplados àquele clube e àquela comunidade; é pertencimento e família.

Garotos do Ninho, uma homenagem da torcida do Flamengo - Foto: Paula Reis
Daí ser interessante notar o quanto a sucessão de vergonhas praticadas pelo Flamengo desde a tragédia do Ninho do Urubu, culminando com as repugnantes cenas de parentes barrados no CT ou a missa para a qual sequer foram convidados, possam ter razões que vão além da falta de humanidade e empatia de dirigentes — elementos que, de fato, compõem a receita da frieza do clube diante do tema. Mas o pano de fundo talvez seja uma realidade comum no Brasil: o desconhecimento dos clubes de seu papel, a incompreensão do que vendem. E, de novo, não no sentido de vender um produto, mas experiências, emoções e valores: enfim, uma forma de dialogar com a sociedade. Clubes se veem como agremiações que competem esportivamente em busca de títulos, pelos quais todos os recursos são válidos. E só. É pouco.

Uma vez reformado o conceito de clube, é possível ressignificar cada etapa da relação com a tragédia. É evidente que o Flamengo já deveria ter resolvido a questão das indenizações às famílias ou feito um esforço muito maior para encerrar a sensação de que protagoniza uma disputa mesquinha. Mas não só pelo dinheiro. É para sinalizar — aos milhões de pessoas que se alimentam dos sonhos que o Flamengo lhes vende — que não se negocia com uma vida, que é possível oferecer à sociedade empatia e comportamentos fora dos padrões. É se assumir como um polo que agrega pessoas reunidas por uma paixão esportiva e por valores. Clubes são exemplos e podem iniciar movimentos reformadores.

E há mais por fazer. Primeiro, não alimentar a aparente tentativa de permitir que o tempo apague a história. Nem o falado memorial no CT foi feito. O exercício deve ser oposto: lembrar para transformar.

Da tragédia, deveria brotar um Flamengo com uma visão social transformada. É fato que o futebol oferece, sim, oportunidades e educação a jovens, mas o faz no contexto da busca por extração de talentos. Até que o funil aperta e tantos adolescentes são descartados. Por isso, quando se imagina que uma tragédia deste porte poderia servir para redefinir a forma como o clube enxerga seu papel, não é exagero lamentar que não tenham emergido ações sociais de um alcance inédito, capazes de transformar vidas de crianças carentes. Ou até mesmo uma fundação, estreitando laços com setores desassistidos da sociedade. Não há limites para um clube deste tamanho — como prova o mercado de transferências de jogadores.

Redefinido o conceito de clube, é possível rever prioridades: existir para competir, mas também para inspirar. No sábado, estavam fechadas as portas do CT para parentes que queriam apenas acender uma vela. A justificativa era de que ali estava concentrado um time que precisava vencer o Madureira. Que tal sonhar com um clube que diz: “Abrimos as portas porque buscamos vencer da nossa forma. E nossa forma é caminhar junto a nossa gente”.

E assim, fazer mais gente sonhar.

Da tragédia, deveria brotar um Flamengo com uma visão social transformada.

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