Flamengo: um time em compasso com a elite europeia

O GLOBO: Por Carlos Eduardo Mansur

Rory Smith, jornalista do “The New York Times”, debruçou-se sobre os relatórios técnicos produzidos pela Uefa a cada temporada europeia. A ideia era identificar uma tendência no jogo atual, um padrão. Encontrou os comportamentos coletivos e recursos que mais frequentemente resultam em gols na Liga dos Campeões.

O que está longe de significar que existe um manual de instruções para se jogar futebol. Mas há tendências como a pressão no campo ofensivo, origem de mais da metade dos gols marcados na competição nas últimas duas temporadas. Ou a capacidade de ser objetivo, direto, chegar ao gol em poucos toques: na média, os principais clubes da Europa precisam de 12,5 segundos e apenas quatro passes entre a recuperação da posse e a finalização.

Foto: Marcelo Cortes
O estudo realça a influência das jogadas pelo lado do campo, origem de mais de um quarto dos gols nas últimas edições da Champions, e das bolas paradas. Estas, em especial os escanteios, teriam recuperado território a partir da sofisticação dos sistemas de bloqueio. Ou seja, quando um jogador de ataque se coloca entre um companheiro e seu marcador, travando a trajetória do oponente.

É notável o quanto estes traços estão presentes nos gols marcados pelo melhor time brasileiro do momento: o Flamengo. Não se trata de dar selo de modernidade num esporte tão plural, mas de notar como o trabalho de Jorge Jesus rompeu com a sensação de descompasso entre o jogo praticado aqui e o que é visto na principal competição do mundo.

Mais de 45% dos gols do Flamengo que não foram marcados em bolas paradas — pênaltis, escanteios ou faltas cobradas para a área — foram construídos em até 12 segundos após a recuperação da bola. E 40% dos gols em lances de bola rolando obedeceram ao padrão europeu de até quatro passes até a finalização.

Quase 30% dos gols do Flamengo de Jesus tiveram origem em desarmes no campo adversário ou em erros provocados pela pressão ofensiva. E, embora saiba trocar passes pacientemente, o time tem a marca de saber ser direto: quase 40% dos gols foram em transição ofensiva, ou seja, aproveitando um desarme para atacar o rival antes que este reorganize sua defesa. É similar o percentual de jogadas que tiveram construção pelo lado do campo. Entre outras razões, com as corridas em diagonal de Bruno Henrique e Gabigol.

Quanto aos bloqueios em jogadas de bolas paradas, o Flamengo de Jesus têm jogos emblemáticos. O principal deles, a semifinal da Libertadores com o Grêmio, quando usou e abusou do recurso contra uma marcação individual. Na quarta-feira, o Barcelona de Guayaquil adotou forma similar de defender e todos os gols saíram em bola parada. Mas sequer foi necessário armar tais bloqueios, de tão débil a marcação rival.

Mas o jogo reafirmou outra arma deste Flamengo. O brutal domínio do jogo foi exercido por um time que fez 60% de seus desarmes da intermediária para frente. Em jogadas de bola rolando, faltaram chances de gol proporcionais a tanto volume. Em parte, pela imprecisão dos atacantes, mas também pelo estado do gramado do Maracanã.

Ainda que em dissonância com os padrões esperados de um campo no futebol atual, o estádio viu outra exibição de um time que, com características próprias, tem como marca andar em compasso com seu tempo.

O estádio viu outra exibição de um time que, com características próprias, tem como marca andar em compasso com seu tempo.

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