Clubes não podem culpar o coronavírus por todas as suas crises

O GLOBO: Por Carlos Eduardo Mansur

À sombra da pandemia, os clubes brasileiros divulgaram seus balanços de 2019 — nem todos no prazo, diga-se. O cenário é multifacetado, exibindo a saúde financeira de Flamengo e Palmeiras no topo da pirâmide, ou os admiráveis exemplos de emergentes amparados por boas gestões, como Athletico-PR, Bahia, Ceará e Fortaleza. Mas há também a recorrente história dos gigantes que, abraçados a seu status histórico, recusam viver a vida real: dos mais de R$ 170 milhões de déficit que o Corinthians acumulou num só ano à terrível situação financeira de Vasco e Botafogo, por exemplo.

A publicação dos balanços termina por evidenciar a capacidade do dirigente brasileiro de se descolar da realidade.

Foto: Marcelo Cortes
No dia 30 de abril, ficamos sabendo que a dívida do Botafogo já representa mais de cinco vezes e meia a receita recorrente anual do clube — nada menos do que R$ 819 milhões em dívidas para uma arrecadação que, descontadas as vendas de atletas, foi de R$ 143 milhões. “É o maior endividamento líquido do Brasil, com geração de receita baixa. É preocupante até para a continuidade do negócio sem um investimento externo”, diz Pedro Daniel, executivo da Ernst & Young.

Cinco dias depois, Ricardo Rotenberg, um dos vice-presidentes e membro do Comitê Executivo de Futebol do alvinegro, relatava suas conversas com o marfinense Yaya Touré e com o nigeriano Obi Mikel, antes de surpreender: “Andei sondando o Robben”. Sim, referia-se ao holandês de 36 anos, ex-Bayern de Munique. Enquanto Rotenberg o sondava, o euro passava voando pela casa dos R$ 6.

Poucas horas após sabermos que o Vasco não conseguiu diminuir a sua dívida, que já bate a casa dos R$ 640 milhões e representa três vezes a arrecadação do clube em 2019, outra surpresa: um candidato a presidente prometia a contratação de uma estrela internacional com Liga dos Campeões no currículo. “A situação do Vasco é complexa. O nível de receita atual é o mesmo que o Flamengo tinha em 2012”, alerta Pedro Daniel.

É oportuno que tais balanços tenham vindo a público em meio à pandemia. Ajudam a desconstruir o discurso que atribui ao vírus a culpa pelo caos que, por vezes, tem como origem uma crise preexistente ou gestões menos cuidadosas. Isto sem falar na pressão por ajuda do governo, como se tantos programas de refinanciamento não tivessem, ao longo do tempo, sido descumpridos pelos clubes.

Presidente do Corinthians, Andrés Sanchez disse recentemente que a paralisação dos torneios poderia causar atrasos de salários. Mas os números do clube indicam que há muito mais coisa além da pandemia a pressionar as finanças: o nível de gastos, por exemplo. Já o Atlético-MG lamentou que o prazo fixado pela Fifa para quitar a dívida pela compra de Maicossuel vencesse em meio à crise do coronavírus. O detalhe é que a dívida é de 2014. Brasil afora, não faltam clubes que viram a interrupção do calendário chegar quando já deviam alguns meses de salários a atletas e funcionários.

Apoiado por clubes e CBF, tramita no congresso um projeto que, motivado pela pandemia, congela por um ano as parcelas do Profut, programa criado em 2015 para refinanciar dívidas com a União. Desde então, quase duas dezenas de clubes brasileiros já fizeram novas dívidas. A culpa não é só do vírus.

O cenário é multifacetado, exibindo a saúde financeira de Flamengo e Palmeiras no topo da pirâmide.

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