Do Ninho à pandemia, o pragmatismo como escolha do Flamengo

O GLOBO: Por Carlos Eduardo Mansur

Se há algo que caracteriza a sociedade brasileira nos últimos tempos é a capacidade de se polarizar diante de qualquer tema. Não seria diferente em tempos de pandemia, tampouco seria natural esperar que, diante das urgências enfrentadas por clubes de futebol, o ambiente de jogo fugisse a esta regra.

O debate em torno do retorno às atividades dos clubes reflete as duas correntes que se opõem em quase todos os setores de atividade no Brasil: economia de um lado, saúde de outro; pragmatismo de um lado, empatia de outro. Como se não fosse possível encontrar uma zona cinza entre o branco e o negro.

Foto: Alexandre Vidal
Seja pelas atitudes, pela forma de comunicá-las ou pela leitura que um país polarizado faz de qualquer atitude tornada pública, o Flamengo se tornou o representante mais emblemático da corrente dos pragmáticos, dos defensores radicais do retorno às atividades. Ainda que em cada comunicado seja feita a ressalva da obediência às autoridades, a corrente de pensamento vigente no clube é de que já é possível retomar o futebol. Concorde-se ou não, é compreensível. Trata-se de uma linha de pensamento, uma filosofia hegemônica no clube. É coerente com a forma como o Flamengo se posicionou em questões recentes.

A gestão atual segue a diretriz da eficiência máxima em seu desempenho, seja ele gerencial ou esportivo. Por vezes, há quem reconheça aí traços de um pensamento individualista, autocentrado. Mas é assim que muitas organizações com esta linha de pensamento funcionam em diversos ramos de atividade no país. Em especial as geridas pelas elites.

Foi assim que o Flamengo, pouco a pouco, fez dos números o ponto focal de sua condução do processo no Ninho do Urubu. Gradativamente, distanciou-se do apelo emotivo de um incidente sem precedentes, pelo alcance do clube e pelo fato de ter vitimado crianças sob sua tutela. Apegou-se a jurisprudências, aos valores de indenizações já pagos por grandes organizações, colocou-se como uma organização empresarial e não como uma instituição que mexe com as emoções de dezenas de milhões de apaixonados. É uma opção, uma forma de se enxergar e de se posicionar no mercado.

Agora, lidera uma corrente que tenta recolocar o futebol na agenda de um Rio de Janeiro que vê explodirem as estatísticas de mortes pela Covid-19. De novo, sob a bandeira da eficiência: exibir sua capacidade de criar processos, mostrar-se uma organização que caminha na vanguarda da ciência aplicada ao esporte e à saúde, posicionar-se como líder de um movimento no futebol brasileiro. E, ao mesmo tempo, ao antecipar o retorno permitir o acesso a receitas que reduzam as perdas econômicas e mantenham o clube no trilho das conquistas esportivas e dos balanços financeiros que o deixam na liderança do ranking de receitas e de eficiência de gestão no país. É o pragmatismo levado às últimas consequências. Há uma linha sendo seguida.

Mesmo que, para tal, o futebol envie à sociedade uma mensagem distinta da que a ciência prega: distanciamento, adequação a um tempo distante na normalidade, empatia e pensamento na coletividade. Há várias discussões que a Europa, num estágio de combate à doença muito mais avançado do que o Brasil, vem travando diante da tentativa da volta ao futebol. Por exemplo, se os serviços médicos necessários a um jogo de futebol podem fazer falta para a sociedade. Ou, ainda, se a testagem em massa de atletas e funcionários é pertinente num momento de saturação da laboratórios e escasses de insumos. Certamente, o Flamengo pesou tudo isso, mas escolheu o seu caminho pragmático.

A opção é por criar uma bolha e seguir um caminho de eficiência em suas atividades-fim. O clube colheu frutos de sua postura, mas também alguns arranhões de imagem. É uma escolha, que, no fim das contas, quase todas as entidades precisam fazer. Ocorre que, num clube de massa, a repercussão é maior. A responsabilidade também.

O Flamengo se tornou o representante mais emblemático da corrente dos pragmáticos.

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