Wladimir Miranda: O vírus da soberba infectou o Flamengo

UOL: Por Wladimir Miranda

Rodolfo Landim, engenheiro, presidente atual do Flamengo, falou à Fox Sports. Muito bem articulado, voz forte, poderosa, fez um detalhado relato das medidas que o clube tomou e vem tomando para que seus jogadores e familiares e pessoas próximas, funcionários e todos que frequentam o Ninho do Urubu fiquem livres da Covid-19.

É admirável, elogiável em todos os aspectos, a preocupação que o clube mostra no sentido de preservar a todos que lhe prestam serviços, direta ou indiretamente. Admito que fiquei impressionado com o zelo e o carinho pela saúde do ser humano que foram demonstrados pelo dirigente no programa.

Estou na estrada como jornalista esportivo há décadas. Poucas vezes vi profissionalismo assim nos clubes brasileiros. E até, quem sabe, do exterior.

Foto: Divulgação
Rodolfo Landim, engenheiro formado pela Universidade do Rio de Janeiro, começou a trabalhar na Petrobras em fevereiro de 1980, por concurso público. Na empresa, trabalhou 26 anos, chegando a superintendente de produção das regiões Norte e Nordeste.

Landim disse que o protocolo adotado pelo Flamengo no combate à Covid-19 teve a participação de infectologistas, imunologistas, se baseou em modelos implantados por clubes europeus e seguiu à risca as recomendações da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e da Federação de Futebol do Rio de Janeiro (Ferj).

Contou que os testes feitos no clube constataram a presença do vírus em oito jogadores de seu elenco. “Um deles (informações dão conta de que teria sido o meia Diego) pegou o vírus de um motorista que prestava serviços para a família. Isto significa que o Flamengo, ao fazer os testes em jogadores, funcionários e em todas as pessoas de suas relações, familiares ou profissionais, prestou um grande serviço à sociedade”, afirmou Landim.

Segundo o dirigente, 293 testes foram realizados pelo Flamengo assim que ficou decidido que o elenco voltaria aos treinos no Ninho do Urubu.

“Todo o núcleo familiar dos jogadores, massagistas, fisiologistas, se submeteu aos testes”, garantiu ele.

“isto que o Flamengo fez tem de ser ressaltado. O clube está colaborando com a sociedade brasileira”, disse.

Sem dúvidas, é louvável o trabalho realizado pelo clube na preservação da boa saúde de seus colaboradores, familiares e pessoas próximas. Não merece ressalvas, só aplausos.

É inquestionável que a estrutura que o clube coloca à disposição de seu elenco é providencial, serve para que seus jogadores sejam orientados sobre o que devem fazer para não serem infectados pelo coronavírus.

Elogios feitos, agora vamos tratar da triste realidade que nos desafia.

Se o Flamengo fosse uma empresa de qualquer ramo de atividade, o discurso de Landim seria perfeito. Ele teria de receber o prêmio de empresário padrão, tal o zelo e a generosidade com que trata seus colaboradores.

A questão é que o Flamengo é um clube, que tem o esporte, o futebol, em especial, como a sua maior finalidade.

Estaria tudo certo se tudo o que landim relatou estivesse sendo feito apenas para que os jogadores saíssem de suas casas e fossem para as dependências do clube, para que pudessem ser melhor cuidados e ficassem longe do risco de infecção pela Covid-19.

Mas não é disso que se trata.

Rodolfo Landim deixa claro em seu discurso que o objetivo é voltar aos treinos com bola e aos jogos o mais breve possível. Foi com este objetivo que ele, acompanhado por Alexandre Campello, presidente do Vasco, rumaram até Brasília para pedir ao presidente Jair Bolsonaro que interceda para que a bola volte a rolar rápído.

Com a insistência em fazer com que o futebol volte logo, Rodolfo Landim mostra que está mais preocupado no momento é com as questões financeiras. O Flamengo, tido como um dos clubes mais estáveis financeiramente até o início do ano, dá sinais de que os cofres estão vazios.

Com uma dívida estimada hoje em R$ 478 milhões, o clube começa a ser cobrado. O Santos, por exemplo, foi à Fifa exigir que o clube carioca lhe pague R$ 3,3 milhões, quantia referente ao mecanismo de solidariedade a qual o Santos tem direito por ter sido o clube formador de Gabriel Barbosa, o Gabigol, comprado pelo Flamengo à Inter de Milão, por R$ 16 milhões. O valor de R$ 3,3 milhões refere-se a 3,7% do total pago pelo Fla ao clube italiano.

Mesmo com as finanças comprometidas, Landim avisa que não aceitou a ajuda que a Ferj está dando aos clubes para a realização dos testes para a Convid-19.

“Nós arcamos com todas as despesas”, disse.

A volta imediata do futebol no Rio de Janeiro não tem o apoio do Botafogo e do Fluminense, os outros dois clubes grandes do estado. O que Landim não falou é que a pressão pela volta do futebol visa impedir a fuga das empresas que patrocinam o clube. A Azeite Royal foi a primeira a romper o contrato de patrocínio com o clube.

A Adidas, fornecedora de material esportivo, atrasou o pagamento da semestralidade de R$ 8 milhões, referente ao valor total de R$ 17, milhões.

O atraso da Adidas e a saída da Royal ligaram o sinal de alerta na Gávea. As conquistas, em campo e no setor financeiro, que colocaram o clube em “outro patamar” no ano passado, servem de argumento de dirigentes e conselheiros, Landim à frente, para que todas as providências sejam tomadas para que o clube continue brilhando e gerando cada vez mais lucros.

O que importa neste momento para Rodolfo Landim e seus parceiros de diretoria é que o clube volte a expor a marca de seus patrocinadores, nos treinos e em jogos, para que a fuga de anunciantes não ganhe mais seguidores.

O Flamengo voltou a treinar, mas não sabe quando e contra quem vai jogar. Fluminense e Botafogo já avisaram que não concordam com o retorno do futebol nos próximos dias. Os clubes pequenos do Rio de Janeiro terão condições financeiras para bancar uma volta segura aos gramados? Duvido.

A Conmebol não sabe quando a Copa Libertadores da América voltará a ser disputada. O início do Campeonato Brasileiro é um enorme ponto de interrogação. Contra quem o Flamengo vai jogar para mostrar que continua em “outro patamar”?

Mas o que interessa mesmo para Rodolfo Landim é colocar o time para treinar e jogar. Infectado pelo vírus da soberba, o Flamengo quer entrar em campo. Não importa que para isto tenha de virar as costas para a pandemia, que já matou mais de 24 mil pessoas no Brasil.

Estou na estrada como jornalista esportivo há décadas. Poucas vezes vi profissionalismo assim nos clubes. E até, quem sabe, do exterior.

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