Advogado da família de Bernardo celebra acordo com Flamengo

COSME RIMOLI: "A dor será eterna. Ninguém tenha dúvida. Mas a questão financeira poderia levar anos e anos e anos. Com uma discussão pública sobre dinheiro com o Flamengo. Sobre quanto vale a vida de um filho morto. De maneira terrível. Por isso, chegamos a um acordo digno. Foi um ano e cinco meses de dor, mas esta questão envolvendo o Bernardo acabou."

As frases são do advogado Thiago Camargo d'Ivanenko. Em entrevista exclusiva ao blog, ele revela como foi o acordo com o Flamengo, fechado ontem, pela indenização da morte do goleiro Bernardo. Ele tinha 14 anos, quando morreu no incêndio no dormitório improvisado, na concentração do Ninho do Urubu, na madrugada do dia 8 de fevereiro de 2019.

Advogado Thiago Camargo d'Ivanenko - Foto: Reprodução
"O Bernardo faria 16 anos no domingo. A família queria acabar com essa parte do sofrimento. Foi o que pudemos fazer", diz D'Ivanenko.

O advogado também conseguiu um acordo para os familiares do atacante Vitor Isaías, que também morreu no incêndio. Ele tinha 15 anos, quando faleceu.

O acordo com Bernardo foi o quarto que o clube carioca conseguiu. Restam seis familiares de vítimas do incêndio que buscam na justiça a indenização. A oferta do Flamengo inicial era de R$ 300 mil e mais um salário mínimo por dez anos. O Ministério Público do Trabalho e a Defensoria Pública exigiam R$ 2 milhões de indenização e mais R$ 10 mil por mês até que os garotos 'completassem' 45 anos.

Depois de um ano e cinco meses, houve quatro acordos. Restam seis famílias. Josete, avó de Vitor Isaías, confirmou ter feito um acordo, em outubro de 2019. Recebeu R$ 1,2 milhão e mais uma pensão mensal pela morte do neto.

Thiago d'Ivanenko diz ter acordo de confidencialidade com o Flamengo para não revelar o acordo aceito pela família de Bernardo. Mas revelou como foi a negociação, que levou um ano e quatro meses.

A imprensa costuma demonizar o Flamengo pela morte dos meninos. E pela briga para pagar o menos possível como indenização. É justa essa cobrança?

A tragédia atingiu a todos. Ninguém queria que tivesse acontecido o incêndio, as mortes. Mas quanto a questão financeira, a postura do Flamengo foi fria, não há dúvida. Entendo, porque envolve patrimônio. Não há como voltar atrás e evitar o que aconteceu. Uma vida não tem preço. O Flamengo poderia oferecer todo o dinheiro do mundo em troca da vida do Bernardo que a família não aceitaria. Todos queriam o menino vivo. Mas infelizmente aconteceu o pior. E ele não vai voltar. Quanto aos valores, a família decidiu aceitar o que considerou digno e acabar com essa parte do sofrimento.

O Flamengo se beneficiou por não haver jurisprudência? E pelo cumprimento das leis no Brasil ser demorado, levar anos e anos até uma sentença final?

Cosme, nós estamos falando sobre vidas de garotos que foram perdidas. Não sobre malas extraviada em um vôo, onde há uma tabela pelo extravio, pelo peso da mala. E, digamos, R$ 5 mil por dano moral. Não há como valorizar uma vida. A discussão na justiça poderia levar anos e anos. Com a transferência de culpa. Para o bombeiro, para a prefeitura, para a CBF... Enfim, poderia ficar um empurra-empurra interminável. Que custaria anos de sofrimento.

O Flamengo está pagando por vontade própria uma quantia para os familiares dos meninos mortos. (R$ 5 mil, apurou o blog, que serão descontados nos acordos ou nas sentenças finais na justiça).  A postura do Flamengo diante das mortes é fria. Sem dúvida alguma, bem fria. Mas legítima. Até porque não pode reverter o que aconteceu. A postura envolve patrimônio do clube. A diretoria está defendendo seus interesses. Mas houve pequenos incidentes (como proibir a entrada de parentes dos meninos mortos na concentração, para rezar, quando o incêndio completou um ano), que afetaram a imagem do clube, da diretoria.

O Bernardo recebia um salário do Flamengo?

Ele tinha ótimo potencial. Era goleiro do Athletico Paranaense, quando recebeu a proposta do Flamengo. Recebia R$ 5 mil.  E quero dar o exemplo que explica a busca pela indenização da família. O Bernardo estava há oito meses no Flamengo. Se ele fosse, por exemplo, para o Vasco, a Lei Pelé daria margem à cobrança de R$ 8 milhões em cima do período que ficou no Flamengo mais os salários. Lógico que a diretoria flamenguista procuraria a justiça para receber. Foi o que a família do Bernardo fez, buscou os seus direitos. Mas o que todos queriam era o menino vivo.

Como a família aceitou o acordo?

Com o sentimento que tem de seguir em frente, apesar de toda a tristeza. O pai de Bernardo, Darlei é uma pessoa muito esclarecida, consciente. E que me disse. "Quando um filho perde o pai ou a mãe se transforma em órfão. Quando o pai e a mãe perdem um filho não existe palavra no dicionário para defini-los. Tamanha é dor.

O pai de Bernardo é uma pessoa muito firme...

Sim, ele decidiu se transformar em um ativista sobre a situação das categorias de base nos clubes. Como no Brasil tudo acaba em esquecimento, ele tem um projeto para exigir que as equipes oferecem uma estrutura mínima para a concentração dos garotos. No Flamengo, o dormitório dos meninos era irregular. Não constava na planta que a prefeitura do Rio aprovou. E não passava de contêineres soldados. Com apenas uma saída. O que contribuiu para a morte dos garotos, quando houve o incêndio.

As famílias do Bernardo e do Vitor Isaias acompanharão o processo criminal contra o Flamengo? Dez meninos perderam a vida no dormitório do clube...

Sem dúvida alguma. As mortes precisam ser responsabilizadas. E as famílias confiam no poder público para punir quem errou nesta tragédia. Haverá sim o acompanhamento de perto. As indenizações são uma pequena parte do processo. Todos querem entender o motivo dessa tragédia.  Para que não se repita...

O Flamengo poderia oferecer todo o dinheiro do mundo em troca da vida do Bernardo que a família não aceitaria.

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